Saber quem você é: quando a opinião do outro deixa de definir o seu valor
Saber o que você é é muito mais importante do que saber o que acham de você.


Essa frase nos convida a refletir sobre o espaço que a opinião dos outros ocupa em nossa vida. Quanto do que fazemos nasce dos nossos desejos? E quanto surge da necessidade de sermos aceitos, reconhecidos ou de não decepcionarmos ninguém?
É natural querer ser bem-visto. Uma crítica pode doer, assim como um elogio pode trazer alegria. O reconhecimento tem importância nos nossos vínculos. Mas, quando a avaliação do outro passa a ser a principal referência para o nosso valor, podemos começar a nos afastar de nós mesmos.
Um comentário nos faz duvidar de uma escolha. Uma desaprovação nos leva a abandonar um projeto. Um silêncio parece confirmar o medo de não sermos importantes. Aos poucos, a pergunta “Isso faz sentido para mim?” cede lugar a outra: “O que vão pensar de mim?”
E viver tentando adivinhar essa resposta pode ser exaustivo.
O que aprendemos a ser para receber afeto?
Ao longo da vida, recebemos nomes e definições: a responsável, a difícil, a forte, a sensível, aquela que resolve tudo. Algumas dessas palavras nos acolhem; outras nos limitam. Até um elogio pode se tornar uma exigência quando sentimos que precisamos corresponder a ele o tempo inteiro.
Quem sempre foi reconhecida por ser forte pode encontrar dificuldade para pedir ajuda. Quem aprendeu a agradar pode sentir culpa ao dizer “não”. Quem foi valorizada pelas conquistas pode passar a acreditar que precisa produzir continuamente para merecer reconhecimento.
Essas experiências podem influenciar a maneira como nos relacionamos conosco e com os outros. Vale perguntar: quais dessas definições ainda fazem sentido? Quais mantemos por medo de perder o lugar que conquistamos nas relações?
Conhecer-se também é suportar as próprias contradições
Saber quem você é não significa ter uma resposta definitiva sobre si. Somos atravessados por experiências, desejos e conflitos. Mudamos de opinião, descobrimos limites e revemos caminhos.
Você pode ser competente e sentir insegurança. Pode amar alguém e precisar estabelecer limites. Pode ter escolhido um caminho com convicção e, depois, perceber que deseja algo diferente.
O autoconhecimento envolve abrir espaço para essas contradições sem transformar cada uma delas em motivo de condenação. Envolve reconhecer qualidades, mas também olhar para as dificuldades e assumir responsabilidade pelo que fazemos.
Quanto mais conseguimos nos escutar, mais condições temos de fazer escolhas que façam sentido para nós — inclusive quando elas não recebem a aprovação que gostaríamos.
Escutar o outro sem se abandonar
A opinião de alguém pode revelar algo que ainda não percebemos. Uma crítica pode ajudar a reconhecer um erro ou a compreender o impacto das nossas atitudes. Por isso, conhecer-se também exige abertura para escutar.
Mas escutar não obriga a aceitar toda avaliação como uma verdade sobre quem somos. Podemos refletir: essa fala considera o que aconteceu ou me reduz a um rótulo? Existe algo nela que posso aprender? O que ela desperta em mim?
Nem toda desaprovação significa que fizemos algo errado. Às vezes, uma mudança nossa contraria expectativas que outras pessoas tinham a nosso respeito. Dizer “não”, por exemplo, pode causar estranhamento em quem estava acostumado à nossa disponibilidade.
A reação do outro merece ser compreendida, mas não precisa decidir, sozinha, o nosso próximo passo.
Que espaço você tem dado à sua própria voz?
Talvez valha fazer uma pausa e se perguntar:
O que tenho deixado de fazer por medo de ser julgado?
Em quais relações sinto que preciso esconder partes de mim para ser aceito?
Que qualidades reconheço em mim mesmo quando ninguém as elogia?
Quando recebo uma crítica, consigo avaliar uma atitude ou sinto que todo o meu valor está em questão?
O que desejo para a minha vida, para além do que esperam de mim?
Essas perguntas não precisam de respostas imediatas. Algumas merecem tempo, escuta e elaboração.
Na psicanálise, há espaço para investigar como essas exigências se construíram, por que certas opiniões nos atingem tanto e quais desejos têm encontrado pouco lugar em nossa vida. Falar sobre isso pode abrir outras possibilidades de nos compreendermos e de nos posicionarmos nas relações.
Saber quem você é é um processo contínuo. A opinião dos outros fará parte dele, mas você também precisa ter voz nessa construção.
Quando você deixa de tentar corresponder, por um instante, ao que esperam de você, o que consegue escutar de si?
