Saber quem você é: quando a opinião do outro deixa de definir o seu valor

Saber o que você é é muito mais importante do que saber o que acham de você.

Monica Schimidt

10/13/20263 min read

Essa frase nos convida a refletir sobre o espaço que a opinião dos outros ocupa em nossa vida. Quanto do que fazemos nasce dos nossos desejos? E quanto surge da necessidade de sermos aceitos, reconhecidos ou de não decepcionarmos ninguém?

É natural querer ser bem-visto. Uma crítica pode doer, assim como um elogio pode trazer alegria. O reconhecimento tem importância nos nossos vínculos. Mas, quando a avaliação do outro passa a ser a principal referência para o nosso valor, podemos começar a nos afastar de nós mesmos.

Um comentário nos faz duvidar de uma escolha. Uma desaprovação nos leva a abandonar um projeto. Um silêncio parece confirmar o medo de não sermos importantes. Aos poucos, a pergunta “Isso faz sentido para mim?” cede lugar a outra: “O que vão pensar de mim?”

E viver tentando adivinhar essa resposta pode ser exaustivo.

O que aprendemos a ser para receber afeto?

Ao longo da vida, recebemos nomes e definições: a responsável, a difícil, a forte, a sensível, aquela que resolve tudo. Algumas dessas palavras nos acolhem; outras nos limitam. Até um elogio pode se tornar uma exigência quando sentimos que precisamos corresponder a ele o tempo inteiro.

Quem sempre foi reconhecida por ser forte pode encontrar dificuldade para pedir ajuda. Quem aprendeu a agradar pode sentir culpa ao dizer “não”. Quem foi valorizada pelas conquistas pode passar a acreditar que precisa produzir continuamente para merecer reconhecimento.

Essas experiências podem influenciar a maneira como nos relacionamos conosco e com os outros. Vale perguntar: quais dessas definições ainda fazem sentido? Quais mantemos por medo de perder o lugar que conquistamos nas relações?

Conhecer-se também é suportar as próprias contradições

Saber quem você é não significa ter uma resposta definitiva sobre si. Somos atravessados por experiências, desejos e conflitos. Mudamos de opinião, descobrimos limites e revemos caminhos.

Você pode ser competente e sentir insegurança. Pode amar alguém e precisar estabelecer limites. Pode ter escolhido um caminho com convicção e, depois, perceber que deseja algo diferente.

O autoconhecimento envolve abrir espaço para essas contradições sem transformar cada uma delas em motivo de condenação. Envolve reconhecer qualidades, mas também olhar para as dificuldades e assumir responsabilidade pelo que fazemos.

Quanto mais conseguimos nos escutar, mais condições temos de fazer escolhas que façam sentido para nós — inclusive quando elas não recebem a aprovação que gostaríamos.

Escutar o outro sem se abandonar

A opinião de alguém pode revelar algo que ainda não percebemos. Uma crítica pode ajudar a reconhecer um erro ou a compreender o impacto das nossas atitudes. Por isso, conhecer-se também exige abertura para escutar.

Mas escutar não obriga a aceitar toda avaliação como uma verdade sobre quem somos. Podemos refletir: essa fala considera o que aconteceu ou me reduz a um rótulo? Existe algo nela que posso aprender? O que ela desperta em mim?

Nem toda desaprovação significa que fizemos algo errado. Às vezes, uma mudança nossa contraria expectativas que outras pessoas tinham a nosso respeito. Dizer “não”, por exemplo, pode causar estranhamento em quem estava acostumado à nossa disponibilidade.

A reação do outro merece ser compreendida, mas não precisa decidir, sozinha, o nosso próximo passo.

Que espaço você tem dado à sua própria voz?

Talvez valha fazer uma pausa e se perguntar:

  • O que tenho deixado de fazer por medo de ser julgado?

  • Em quais relações sinto que preciso esconder partes de mim para ser aceito?

  • Que qualidades reconheço em mim mesmo quando ninguém as elogia?

  • Quando recebo uma crítica, consigo avaliar uma atitude ou sinto que todo o meu valor está em questão?

  • O que desejo para a minha vida, para além do que esperam de mim?

Essas perguntas não precisam de respostas imediatas. Algumas merecem tempo, escuta e elaboração.

Na psicanálise, há espaço para investigar como essas exigências se construíram, por que certas opiniões nos atingem tanto e quais desejos têm encontrado pouco lugar em nossa vida. Falar sobre isso pode abrir outras possibilidades de nos compreendermos e de nos posicionarmos nas relações.

Saber quem você é é um processo contínuo. A opinião dos outros fará parte dele, mas você também precisa ter voz nessa construção.

Quando você deixa de tentar corresponder, por um instante, ao que esperam de você, o que consegue escutar de si?